Sua pele parecia seca e seu rosto cansado. Pela delicadeza com que levava a boca aquela xícara, pude compreender que poderia ser de natureza quente, um chá, um café, algo confortável que a fizesse esquentar naquele fim de tarde.
Ao me aproximar pude notar uma lágrima escorrendo por entre as marcas da idade.
- Dona Izabel? A senhora está bem? — Perguntei como quem esperava uma resposta em tom negativo; em vão. Pois nem uma palavra disse.
Rodeei um pouco por volta daquela enorme cozinha em busca de algo que já não sabia mais o que era. Não poderia evitar o incomodo de vê-la daquele jeito.
- Sabe? Nesses meus 80 anos pude ver e sentir coisas que as vezes nem eu mesma acredito — começou.
Esse Hotel sempre foi o sonho de meu falecido pai; Cresci, vivi e morrerei aqui. O cuidei como se também fosse meu sonho.
Vi senhores poderosos com suas jovens encantadoras. Prefeitos e até mesmo Presidentes esbanjando simpatias de frente e sorrisos fajutos por trás.
Acompanhei namoros e servi casais apaixonados; casais que já não sei por onde andam. Conheci amores platônicos e também reais. Vivi noites de paixões e sofri a decepção da fantasia na manhã seguinte.
Me lembro de como esse lugar costumava ser; Festas, alegrias, tristezas disfarçadas com músicas altas, Jazz, dança, bebidas e hoje? Hoje só consigo ter a companhia de um gelado vento que me toca. Os hóspedes são poucos e ausentes, e me pergunto: É assim que terminarei minha longa jornada?
- Se arrepende de algo? — Curiosa questionei.
- Só do que eu deixei de fazer. Arrependo-me dos sentimentos que guardei, dos passos de blues que deixei de dançar, dos beijos longos que não terminei, dos sonhos que matei. Viveria tudo outra vez; Nem sempre podemos lutar contra o destino, mas podemos interagir com ele.
Ela foi se levantando, meio manca e com as costas baixas causadas pela dor. Ao se aproximar da porta, eu a gritei:
- Aonde a senhora vai?
Com um olhar confortador me respondeu:
- Não creio que fizesse parte de seus planos ouvir uma senhora da minha idade contando sua vida com uma dose extra de sensibilidade. Tenha uma boa noite, minha querida.
Ela saiu e por instante aquele lugar perdeu o calor. Talvez eu tivesse outros planos, compromissos, mas acredito que estava onde deveria estar. Ouvi o que precisava ouvir! Só Deus sabe o tamanho que seria meu arrependimento se ali não tivesse permanecido.
E ao deitar minha cabeça no travesseiro naquela gelada noite, pude concluir que a vida é feita de sutis oportunidades.
Hoje escrevo essa carta e posso dizer que nem sempre os melhores conselhos e sensações são ditas e escancaradas, muitas vezes só precisamos de um olhar, olhar como o que mirou-me durante aquela Terça, Três de Julho – 1985.
Nunca me esqueci daquela conversa e daquela experiente mulher. Como aprendi!
Desde aquele dia, Inverno virou calor e olhos, armas de conforto
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